O ecossistema de e-books acadêmicos passa por uma redefinição acelerada, segundo um novo relatório da Ithaka S+R apresentado em um guest post no The Scholarly Kitchen. Publicado em 14 de agosto de 2025, o texto assinado por Tracy Bergstrom, da Ithaka S+R, anuncia e contextualiza o estudo “The Current State of Academic E-Book Business Models”, que mapeia como bibliotecas, editoras e autores estão sendo atendidos pelos modelos de negócio atuais para monografias eletrônicas.

A pesquisa — conduzida entre outubro de 2024 e janeiro de 2025, com 17 entrevistas qualitativas — foi atualizada após a mudança anunciada pela Clarivate em fevereiro de 2025, para captar impactos imediatos no mercado. O relatório, de 13 de agosto de 2025, é assinado por Tracy Bergstrom e Makala Skinner e contou com apoio da Mellon Foundation. 

Entre as principais conclusões, o estudo identifica um descompasso expressivo entre bibliotecas e editoras no segmento de monografias: enquanto editoras, especialmente universitárias, relatam forte compressão financeira na transição para o digital, muitas bibliotecas consideram insustentáveis ou difíceis de gerir vários modelos de aquisição oferecidos hoje. O resultado é uma convivência tensa entre necessidade de ampliar acesso e a busca por previsibilidade orçamentária e de preservação.

Do lado das práticas de aquisição, a maioria das bibliotecas combina métodos para atender demandas locais, mas os entrevistados apontam a Evidenced-Based Acquisition (EBA) como via eficiente de alocação de recursos. Em paralelo, diversas instituições relatam ter se afastado de programas de Demand-Driven Acquisition (DDA) devido ao alto custo operacional de manutenção. A seleção tradicional título a título, conduzida por bibliotecários de área, permanece relevante em várias instituições, sempre com a meta de assegurar acesso perpétuo e preservação.

Capacidade técnica e padronização contratual aparecem como gargalos. Faltam profissionais com experiência específica para navegar em contratos e licenças heterogêneas entre editoras e agregadores; bibliotecas defendem maior padronização para reduzir o esforço de aquisição. Em alguns casos, a complexidade de licenciamento levou equipes a preferir o impresso. O estudo observa ainda que, diferentemente do que ocorreu com periódicos de comunicação científica, bibliotecas não têm investido no mesmo grau em estratégia de monografias. 

Mudanças recentes em fornecedores agravam a incerteza

Em 18 de fevereiro de 2025, a Clarivate anunciou a migração para um modelo de assinatura para e-books e coleções digitais via ProQuest, com a previsão de encerrar gradualmente compras perpétuas únicas; posteriormente, a empresa comunicou uma extensão da janela para compras perpétuas até 30 de junho de 2026. O movimento foi percebido por bibliotecas como um sinal de “big deals” também para livros. 

A EBSCO, por sua vez, reafirmou o compromisso com acesso perpétuo, atendimento a modelos flexíveis de aquisição e compra de livros impressos, além de destacar o Mosaic (plataforma lançada em outubro de 2024 pela GOBI Library Solutions) para modernizar e agregar a seleção de conteúdo. Essas posições oferecem um contraponto estratégico para instituições que buscam previsibilidade de posse e menor atrito operacional.

O relatório também registra que editoras e bibliotecas convergem na valorização de iniciativas de acesso aberto a monografias — como Direct to Open, Fund to Mission, Opening the Future, Path to Open e University Press Library Open. Embora ainda não tenham escala para cobrir toda a produção, esses modelos são vistos por bibliotecas como promissores para ampliar o acesso, apoiar pequenas e universitárias e promover opções financeiras mais responsáveis. Consórcios ganham centralidade para ampliar leitura e publicação, e acordos “read-and-publish” para livros começam a despontar como alternativa.

Outra frente acompanhada pela Ithaka S+R é o impacto potencial da IA generativa sobre monografias eletrônicas. A percepção majoritária dos entrevistados é que os efeitos tendem a ser transformadores — inclusive na forma de engajamento com conteúdos longos —, mas ainda difíceis de prever. Nesse cenário, orçamentos achatados forçam escolhas: coleções em pacote, acordos híbridos impresso-digital e modelos de “flip to open” competem por atenção e recursos, mantendo o sistema dinâmico e complexo.

Para editores, pesquisadores e gestores de periódicos, o quadro pintado pela Scholarly Kitchen e pela Ithaka S+R é de transição e necessidade de alinhamento fino entre sustentabilidade financeira e a missão de disseminar conhecimento. A curto prazo, a recomendação implícita é acompanhar de perto políticas de acesso perpétuo, cláusulas de preservação e métricas de uso, avaliar ganhos de eficiência de EBA frente a custos operacionais de DDA e explorar programas de OA para diversificar o portfólio e reduzir riscos de dependência de um único fornecedor.


Glossário da matéria

Evidence-Based Acquisition (EBA): Modelo em que a biblioteca paga um valor fixo e antecipado para dar acesso amplo (geralmente por 12 meses) a um grande conjunto de e-books. Ao final do período, usa dados de uso para escolher quais títulos ficam em acesso perpétuo, até o limite do orçamento depositado. Na prática, oferece previsibilidade e decisões orientadas por evidências de leitura. Exemplos:

Demand-Driven Acquisition (DDA): A biblioteca não compra nada de início: carrega registros no catálogo e, quando o usuário atinge um gatilho de uso (ex.: download, impressão, leitura acima de um limiar), o título é automaticamente adquirido ou feito um empréstimo de curto prazo (STL); alguns programas permitem acumular STLs para compra (Access-to-Own). É um modelo “just-in-time”, altamente alinhado à demanda real. Exemplos:

Read-and-publish: acordo transformativo entre consórcios/bibliotecas e editoras que combina, num único contrato e taxa anual, o direito de ler (acesso ao pacote de periódicos) e o direito de publicar em acesso aberto os artigos de autores afiliados, cobrindo as APCs dentro de um limite de elegibilidade/capacidade definido no acordo. A ideia é migrar o gasto de assinaturas para a publicação aberta, com regras de compensação para evitar “dupla cobrança”. Exemplos:

Flip to open: modelo de financiamento para livros acadêmicos em que o título começa fechado (acesso restrito) e passa a acesso aberto depois que a editora atinge uma meta de receita pré-definida — normalmente via compras/assinaturas de bibliotecas dentro dos hábitos normais de aquisição. Ao bater a meta, a editora libera a versão digital aberta para leitura pública, enquanto segue podendo vender o impresso e/ou oferecer funcionalidades premium para instituições. Exemplos:


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Fonte: Scholarly Kitchen


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