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Reforma urgente na publicação científica volta ao centro do debate após cartas no The Guardian

Um conjunto de cartas publicado pelo The Guardian em 20 de julho de 2025 defende que o sistema de comunicação científica precisa de reformas imediatas para preservar a confiança pública na pesquisa. Os autores, que incluem pesquisadores e profissionais de comunicação científica, reagiram a reportagem do próprio jornal sobre a explosão de artigos e a queda de qualidade, alertando que os incentivos atuais — que valorizam quantidade em detrimento de qualidade — e a lógica de negócio dos grandes editores alimentam um ciclo de produção massiva com baixo valor científico. Eles argumentam que inteligência artificial, se usada para acelerar ainda mais o “publicar ou perecer”, tende a agravar o problema, e pedem que financiadores reorientem critérios de avaliação para premiar rigor e relevância1.

Entre as críticas, os signatários ressaltam que as taxas de publicação em acesso aberto (APCs) cresceram de forma acelerada e transferem recursos públicos para margens corporativas elevadas. Eles citam estimativas recentes segundo as quais pesquisadores desembolsaram cerca de US$ 8,3 bilhões em APCs para seis grandes editoras entre 2019 e 20232, com gasto anual quase triplicando no período; em muitos periódicos, uma única publicação pode custar de £2 mil a £10 mil. O grupo também menciona relatos de margens de lucro que chegam a 38%3 em uma grande editora comercial, como a Elsevier. Para os autores, essa estrutura “extrativa” só mudará quando avaliação acadêmica — contratação, promoção e financiamento — for desvinculada do prestígio de revistas comerciais.

As cartas afirmam ainda que políticas de acesso aberto lideradas por financiadores, como o Plan S, foram “capturadas” por interesses comerciais e não produziram a democratização esperada, ao migrarem barreiras do leitor para o autor. Como alternativas, os signatários apontam modelos não comerciais, sobretudo o Acesso Aberto Diamante — sem cobrança para ler nem para publicar — e destacam iniciativas fora do norte global, com menção direta ao ecossistema SciELO na América Latina e à Aliança Global de Acesso Aberto Diamante, lançada sob a coordenação da UNESCO e parceiros para fomentar infraestruturas comunitárias.

O diagnóstico converge com a reportagem do Guardian publicada uma semana antes, que expôs a sobrecarga do sistema: crescimento de 48% no volume de artigos indexados na última década, pressão sobre a revisão por pares, reações a retratações em massa e a casos de imagens e textos gerados por IA que escaparam à triagem editorial. Ali, líderes científicos defendiam reengenharia dos incentivos e um uso mais seletivo da revisão por pares, reconhecendo que a tecnologia tanto desafia quanto pode ajudar a filtrar o que importa.

Houve também reação da indústria. Em uma das cartas, a diretora-gerente da Cambridge University Press, Mandy Hill1, reconhece que “algo precisa mudar” e informa que a editora conduziu, nos últimos meses, um “exame radical e pragmático” do ecossistema de publicação em ciência aberta, com relatório previsto para o outono. Para ela, combater apenas IA generativa ou periódicos de baixa qualidade é insuficiente; é necessário um redesenho sistêmico que alinhe publicação, avaliação e integridade, e que leve a sério a transformação tecnológica em curso.

Para editores e pesquisadores, o recado é direto: reformar critérios de avaliação para desestimular a salami science; exigir transparência de preços e serviços editoriais; fortalecer infraestruturas públicas e comunitárias de publicação; e investir em mecanismos de integridade que combinem tecnologia, curadoria humana e governança multilateral. O debate recoloca no centro a pergunta-chave: quem deve pagar — e por quê — para que o conhecimento circule com qualidade, equidade e confiança social.


Referências

  1. Scientific Publishing Needs Urgent Reform to Retain Trust in Research Process”. The Guardian, 20 de julho de 2025. The Guardian, https://www.theguardian.com/science/2025/jul/20/scientific-publishing-needs-urgent-reform-to-retain-trust-in-research-process. Acesso em 13 de agosto de 2025.
  2. Haustein, Stefanie, et al. Estimating global article processing charges paid to six publishers for open access between 2019 and 2023. arXiv:2407.16551, arXiv, 23 de julho de 2024. arXiv.org, https://doi.org/10.48550/arXiv.2407.16551. Acesso em 13 de agosto de 2025.
  3. How academic publishers profit from the publish-or-perish culture”. Financial Times, 27 de maio de 2024. https://www.ft.com/content/575f72a8-4eb2-4538-87a8-7652d67d499e. Acesso em 13 de agosto de 2025.

Texto produzido com auxílio de Inteligência Artificial e revisado pelo autor.
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