Imagine dois manuscritos de ensaio clínico chegando à sua revista no mesmo dia. Um segue, item a item, uma lista de verificação reconhecida internacionalmente; o outro descreve os métodos do jeito que o autor achou melhor. Antes mesmo de ler os resultados, em qual dos dois você confia mais? E, mais importante: como o editor sabe qual lista de verificação exigir de cada tipo de estudo que passa pela sua mesa? A resposta tem nome e endereço: a EQUATOR Network.
No texto que abre esta série, tratamos da base normativa que sustenta a publicação científica — as Recomendações do ICMJE e as práticas da COPE. Assentado esse chão, chega o momento de olhar para as diretrizes de relato propriamente ditas: os documentos que dizem, para cada desenho de estudo, o que precisa ser informado. Elas são muitas, e é fácil se perder. A EQUATOR Network é justamente o mapa que organiza esse território — e este texto funciona como o ponto de partida ao qual os próximos da série sempre retornarão.
Antes de seguir, vale alinhar um termo que atravessará toda a série. Relato, aqui, é a tradução de “reporting” e nada mais é do que a comunicação científica: a forma e a estrutura com que os resultados de uma pesquisa são apresentados. Isso vale para qualquer tipo de manuscrito. No Brasil, é comum classificar os trabalhos em Pesquisa Original, Revisão Sistemática, Relato de Caso, entre outros — e todos eles, sem exceção, são um relato: a descrição do que foi investigado e do que se encontrou. O termo, aliás, aparece explicitamente no nome de um desses tipos, o Relato de Caso, mas o conceito se aplica a todos.
Relato não se confunde com a condução do estudo. Um trabalho pode ter sido desenhado e executado de maneira impecável e, ainda assim, ser mal relatado, se omitir informações essenciais sobre método, participantes ou desfechos. É por isso que as diretrizes de relato não dizem como conduzir a pesquisa; dizem o que precisa constar no texto para que qualquer leitor consiga entender, avaliar e reproduzir o que foi feito. “Relatar bem” e “pesquisar bem”, portanto, são coisas distintas — e complementares.
O que é a EQUATOR Network
EQUATOR é a sigla de Enhancing the QUAlity and Transparency Of health Research (Aprimorando a Qualidade e a Transparência da Pesquisa em Saúde). Trata-se de uma iniciativa internacional, lançada em 2008 [1], que reúne em um único lugar as diretrizes de relato existentes e promove seu uso por autores, revisores e editores. Foi idealizada por um grupo liderado pelo estatístico britânico Doug Altman, com Iveta Simera e colaboradores, e é coordenada pelo UK EQUATOR Centre, sediado na Universidade de Oxford. Seu núcleo é uma biblioteca online que cataloga centenas de diretrizes de relato [2], organizadas por tipo de estudo — de ensaios clínicos a estudos qualitativos, passando por observacionais, revisões sistemáticas e muitos outros.
Embora tenha nascido no campo da saúde — daí o “health research” em seu nome —, a lógica das diretrizes de relato se espalhou para muitas outras áreas. Boa parte do que a EQUATOR organiza é útil a qualquer editor comprometido com transparência, e várias diretrizes que ela cataloga já atravessam as fronteiras da biomedicina.
Por que ela existe: o combate ao desperdício na pesquisa
A EQUATOR não nasceu de uma preocupação burocrática, mas de uma constatação incômoda: boa parte do esforço científico se perde não por erro de método, mas por falha de comunicação. Em um artigo que se tornou referência, Iain Chalmers e Paul Glasziou estimaram que uma parcela substancial do investimento em pesquisa é desperdiçada — e uma das causas centrais é o relato incompleto ou impreciso, que impede outros de avaliar, replicar ou aproveitar os achados [3]. Relatar de forma transparente e completa, ao contrário, aumenta a confiabilidade, a utilidade e o impacto de um estudo [4]. É esse o problema que as diretrizes de relato atacam, e que a EQUATOR ajuda a resolver em escala.
Como escolher a diretriz certa
O maior valor prático da EQUATOR para o editor está em transformar esse acervo em decisão. O site oferece um assistente de seleção — uma árvore de decisão que, a partir do desenho do estudo, aponta a diretriz apropriada. Na prática, o raciocínio acompanha o tipo de pesquisa: ensaios clínicos randomizados conduzem à CONSORT; estudos observacionais, à STROBE; revisões sistemáticas e metanálises, à PRISMA; estudos de acurácia diagnóstica, à STARD; e assim por diante. Cada uma dessas diretrizes será tema de um texto próprio ao longo desta série. A PRISMA, inclusive, já foi abordada aqui no blog, em texto dedicado.
O que a EQUATOR oferece ao editor
Além da biblioteca e do assistente de seleção, a EQUATOR mantém materiais voltados especificamente a periódicos e editores: orientações sobre como adotar diretrizes de relato no fluxo editorial, recursos de treinamento e exemplos de bom relato. Para o editor, o site funciona como uma central permanente de consulta — o lugar para onde enviar autores em dúvida e onde buscar a versão mais atual de cada lista de verificação.
Levando a EQUATOR para a política editorial
Incorporar a EQUATOR à revista é, mais uma vez, uma questão de política editorial — de transformar uma boa intenção em regra escrita. Alguns movimentos concretos, seja ao elaborar a política do zero, seja ao revisá-la:
1. Exija a diretriz de relato adequada a cada tipo de estudo. Torne o cumprimento uma condição de submissão, e não uma sugestão.
2. Aponte o caminho ao autor. Inclua nas normas o link para o assistente de seleção da EQUATOR, para que o próprio autor identifique e preencha a lista correta.
3. Peça a lista de verificação preenchida na submissão. Com indicação da página ou da linha em que cada item é relatado, sem o que a submissão não avança.
4. Incorpore a conferência à avaliação por pares. Que o cumprimento seja verificado por uma pessoa, e não apenas declarado pelo autor.
5. Remeta sempre à versão atual. Aponte para a biblioteca da EQUATOR, evitando que circulem listas de verificação desatualizadas.
A EQUATOR não substitui o julgamento editorial: ela o organiza. Ao reunir em um só mapa as diretrizes de relato de praticamente todos os desenhos de estudo, ela permite que o editor deixe de decidir caso a caso e passe a trabalhar com um sistema — o que já dialoga diretamente com a base normativa do ICMJE e da COPE que abriu esta série. É por isso que este texto é o ponto de ancoragem de tudo o que vem a seguir.
Cada diretriz que detalharmos adiante é uma peça desse mapa. No próximo texto, começaremos pelo par CONSORT e SPIRIT — o relato de ensaios clínicos randomizados e de seus protocolos. Nos artigos seguintes, percorreremos as demais, uma a uma, sempre com o mesmo objetivo: ajudar a sua revista a publicar ciência que possa ser lida, avaliada e reproduzida com confiança.
Referências
1. Altman DG, Simera I, Hoey J, Moher D, Schulz K. EQUATOR: reporting guidelines for health research. Lancet. 2008;371(9619):1149-1150.
2. Simera I, Moher D, Hoey J, Schulz KF, Altman DG. A catalogue of reporting guidelines for health research. Eur J Clin Invest. 2010;40(1):35-53.
3. Chalmers I, Glasziou P. Avoidable waste in the production and reporting of research evidence. Lancet. 2009;374(9683):86-89.
4. Simera I, Moher D, Hirst A, Hoey J, Schulz KF, Altman DG. Transparent and accurate reporting increases reliability, utility, and impact of your research: reporting guidelines and the EQUATOR Network. BMC Med. 2010;8:24.
5. EQUATOR Network. Enhancing the QUAlity and Transparency Of health Research. Disponível em: https://www.equator-network.org/
Texto produzido com auxílio de Inteligência Artificial, planejado e revisado pelo autor.
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